Gente que dói

O livro “ Gente que dói” de Vítor Pinto Basto publicado em Abril de 2005 é uma reflexão jornalística sobre as pessoas que viveram e ainda vivem o conflito Basco em Espanha. Apesar de ser um livro pequeno e de leitura acessível as mensagens que podem ser subentendidas são muito fortes. À medida que o leitor vai lendo os relatos jornalísticos do escritor vai sentido um gosto amargo que parece incomodar: O que é o nacionalismo do século XXI? Será que no mundo globalizado em que vivemos  define a identidade como sinónimo de liberdade? Esta é uma das interrogações que fica subjacente depois de descrito o cortejo dos pais e mães bascos que às sextas-feiras exibiam um cortejo de fotografias de filhos e filhas mortos durante os conflitos por causa da luta pela auto-determinação basca. O livro mostra o paradoxo existente entre o desejo da liberdade por uma identidade e o uso de uma língua versus a riqueza material e a opressão de um estado totalitário que pretendeu extreminar ou apagar a cultura basca .Um dos entrevistados descritos no livro: Marxtelo Otamendi, um jornalista preso por ter ideias similares aos da ETA e por sempre ter afirmado não pertencer à ETA é um dos testemunhos mais importantes desta leitura, uma vez que descreve as torturas a que foi sujeito sem nunca ter recebido uma resposta conveniente da justiça nacional e internacional.
  Curiosamente  o prefácio escrito por Rui Pereira do livro serve de metáfora entre a temática do livro: a opressão a que foi sujeito o povo basco e os jornalistas, que a cada dia devem obeceder a certos critérios editoriais e exigências de mercado de forma a continuarem a subsistir: “Sabemos como o sangue vende” e de forma de nostalgica refere o “tempo em que a curiosidade do repórter era combustível do jornalismo.”
Outro dos aspectos interessantes sobre o livro é a forma como é apresentada a ETA, uma vez que ao longo das descrições geográficas e dos roteiros gastronómicos do jornalista a ETA é apresentada segundo diferentes perspectivas: Organização terrorista ou organização armada? Porque se de uma forma é organização responsável pelos atentatos é em simutâneo a organização que reivindicava o direito à auto-governação e independência linguística e cultural. Por outro lado, a mesma organização é apresentada segundo uma perspectiva negativa no sentido que muitos bascos apesar de nacionalistas não se reviam nas acções ditas terroristas e ao mesmo tempo muitos espenhóis e bascos consideram a organização como sendo responsável por dar a  imagem ao mundo que os “bascos são um povo terrorista”. Segundo o jornalista escritor do livro esta ideia não corresponde à realidade de um povo trabalhador e honesto, amante da cultura e da intlectualidade. Foi possível ainda absorver ao longo da leitura a existência de inúmeras associações ligadas ao apoio às vítimas de atentados : Basta ya, AVT, Gesto pela Paz. Associações essas que são desconhecidas pela maioria das pessoas e que ainda prestam um trabalho social muito preciso no país basco.
Um livro que bem analisado fala sobre os vazios da constituição espanhola e  conta a história do  povo Euskadi que foi vitíma da perseguição do ditador Franco entre 1936 e 1939, perseguição que resultou na morte de três mil bascos e que em pleno seculo XX   gerou o reaparecimento de movimentos nacionalistas pondo à vista velhos dilemas ainda não resolvidos pela história do homem.


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