Vida Adentro
Vida Adentro é um livro de poesia do escritor Jorge Vilhena Mesquita, publicado em 2010 pelas Edições Sempre-em-pé. Um livro que é uma metáfora sobre o que é realmente a vida, como sugere a metáfora do título: a vida como o mar que a todos invade sem que seja pedido.
Este livro leve no peso material é deveras compacto no conteúdo mas não na forma: a poesia deste autor é em simultâneo etérea mas é do tipo de poesia que faz reflectir, por isso é possível inclusivé observar momentos de intertextualidade com Fernando Pessoa: Da solidão vazia./ Só sinto o indefinido, do coração vazio" através deste exerto do poema de Pessoa encontramamos a mesma sensibilidade e a mesma sugestão temática no livro de Jorge Vilhena: " Ontem é nada e amanhã também/ Só hoje existe o vazio porém." (pag.11)...é curioso ainda verificar que ambos encontram o "Vazio" através de uma contextualização temporal, porque no caso do poema Pessoa existe uma referência ao dia que não chega, porque não há sentimento e no caso de Vilhena o tempo em si não tem valor.
Existem mais momentos no livro onde se manifestam as influências pessoanas através por exemplo das reflexões sobre a morte e a memória: " É isso a morte, a ausência de memória.
Vários momentos do livro invocam a temática do saudosismo português: " A angústia me conhece, alguns amigos, uma guitarra, as flores e a poesia." (p.12) e da evocação da saudade: " Só antes de partir sinto saudade, do que jamais esqueço, ausente."(p.13)
No livro deste autor existem também jogos implícitos de semiótica e de número: " Tal como todos de quem nunca soube/ um dia hão-de morrer aqueles que amo/. " Um verso que se for desdobrado perde o encanto mas ganha mais significância: um dia vão morrer os que amo, a mesma idea se aplica a todos os outros que o autor e o leitor não conhece.
A forma de construção deste livro de poemas é invulgar e faz pensar: se por um lado existem momentos que nos fazem lembrar Pessoa, por outro existem outros, que raiam o saudosismo trágico de Florbela Espanca: Um dia hei-de morrer e nem sequer o que ficar me poderá valer." (pag. 23)
Outro dos capítulos interessantes de ler é o que fica entre a página 47 e 59 onde o autor fala da história de um amor que existiu e que acabou. É esse amor que faz o poeta duvidar se o amor que se recorda e dos quais ainda tem poemas possa deveras estar extinto: " Esse poema com o vagar reli/ que no passado amei, agora não. Seria ele menos belo então ou da sua beleza me perdi?" ( pag.64).
Em outros poemas, o autor domina com a ilustração dos seus pensamentos: " o formigar de sempre a nenhum lado. As tílias sujas. Tempo embalsamado na luz que cega." (pag. 73) - onde é capaz de demonstrar a sensação de vacuo vivida na cidade. Jorge Villena Mesquita demonstrou através desta obra que é um dos poucos poetas portugueses capaz através dos seus poemas e de frases dadaístas ilustrar a factualidade e estranheza da vida : " Acaso viste as oito mãos quando a lua veio? - Aranha." (pag.17).


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