Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado
Esta sexta edição revista pelo autor e publicada pela Editora Planeta de Agostini S.A em 2005 continua vigorosa apesar da primeira edição ter sido publicada há 150 anos!
O escritor descreve engenhosamente Basílio, de criança à idade adulta e explica que o nome Enxertado veio da alcunha do pai, que preferia a sua aldeia nativa " Enxertado" às grandes cidades: " menos sensível à saudade das suas aldeias, ria do moço, e, por mofa, lhe chamavam o Enxertado, alcunha que ele juntou ao seu nome com honras de apelido (pag.28).
O autor descreve ainda Basílio no início da vida como sendo uma criança de inteligência medíocre
que era o tormento do mestre: "Era a cabeça de Basílio, no dizer do mestre muito mais dura e tapada, e maior que a bola de pedra da torre dos clérigos" (pag.28).
Quando adolescente, Basílio apaixona-se pela afilhada da mãe que inicialmente é conhecida
pelo nome de Inácia. Assim como Basílio, Inácia acaba por ser uma personagem de grandes evoluções. Se em criança brincava com Basílio em adolescente e depois de usufruir de aulas de música, passa a detestar a sua presença:" - A minha afilhada está-se fazendo muito discreta! Vossemecê não vê aqueles modos de serigaita, desde que toca no cravo? ..." Quando o meu Basílio lhe diz alguma graça faz uma careta e berra: " Deixe-me, que me amarrota." (pag. 34).
A própria Inácia sente a transformação e muda o nome para Custódia: " Até aos nove anos chamou-se Bonifácia; depois como que as condiscípulas lhe chaqueassem o nome, crismou-se em Custódia, que era o nome de sua mãe, não melhorou" (pag.31). Inácia haveria ainda ter um terceiro e último nome Etelvina, muda-o por causa das amigas das aulas de piano lhe chamarem Custódia 1° em comparação com a cozinheira. Estas e outras alterações dos nomes e das atitudes dos personagens deixam a descoberto as lutas entre classes sociais e ilustra o surgimento de uma burguesia portuense sedenta de um brilho que o dinheiro não possa comprar.
Basílio vai assim de capítulo em capítulo tentando conquistar a afeição da afilhada da mãe, facto que não agrada aos pais porque estão convencidos que Etelvina se instruiu no sentido de contrair o matrimónio com homem rico. Com o desenrolar da história lê-se isso mesmo e o própio pai de Etelvina apoia a filha depois de saber que esta trocou correspondência em simultâneo com Basílio e Henrique Pestana alternando entre um e outro, esperando sempre obter o melhor dote.Ao longo da narrativa o leitor terá ainda o prazer de se rir com a figura desajeitada e desastrada de Basílio que ora cai de cavalo e parte as duas pernas em frente da casa de Etelvina, ora quase se afoga no Douro ao tentar entrar no barco onde está Etelvina, ora quase é apanhado por frades e freiras na capoeira do covento e de onde saí quase sempre desnudo. Basílio viveu assim o seu drama amoroso do Porto a Lisboa, de Lisboa à Régua e do Porto a Paris. Acabará o romance como é bem devido ao estilo Camiliano em Coimbra. Comilão e cheio de ideias, aborda o próprio escritor e envolve-o nas suas aventuras: " ora deixe-se disso...Fale quer versos? Já sei peço-lhe a mote.
- Pois sim; mas eu quero pagar o seu trabalho. Dou-lhe um pinto por cada verso".
- Por cada verso?! Veja lá que se arruina! Uma décima tem dez versos; cada décima, pelas suas contas são dez pintos." (pag.57)...
O único detalhe da obra que permance obscuro e incompleto é o facto do marido de Elvetina aparecer em Coimbra como moribundo, pedindo água contaminado pela febre amarela. Será que esta foi uma forma simples e romanceada que Camilo decidiu usar para fechar romance? Ou seria esta a forma mais apropriada para terminar um romance onde o divórcio nunca poderia ser descrito por causa da carga imoral e criminal da época?


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